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Advogado pode postar sentença no TikTok e Instagram?

Publicado em 7 min de leitura Por Adv do Brasil
Advogado pode postar sentença no TikTok e Instagram

A atuação de advogados em redes sociais é regulamentada por diversas normas, incluindo o Código de Ética e Disciplina (Resolução n. 02/2015), o Estatuto da Advocacia e da OAB (Lei n. 8.906/1994) e o Provimento n. 205/2021 do Conselho Federal da OAB.

Essas diretrizes buscam preservar a sobriedade e a ética profissional mesmo no ambiente digital.

O Caso Específico do TikTok

O Tribunal de Ética e Disciplina da OAB de Minas Gerais emitiu uma cartilha com recomendações específicas sobre o uso de redes sociais, destacando que “o aplicativo Tik Tok e/ou similares de entretenimento, por não guardarem a sobriedade necessária para o exercício da advocacia, não são ferramentas adequadas para a publicidade profissional”.

Esta orientação demonstra preocupação com o formato e a natureza da plataforma, considerados incompatíveis com a seriedade exigida da profissão.

Diretrizes Gerais para Redes Sociais

Além da recomendação específica sobre o TikTok, a OAB também estabelece limites para o uso de outras plataformas como o Instagram. Entre as práticas vedadas estão:

  • Divulgação de listas de clientes e demandas judiciais
  • Publicação de fotografias ou vídeos com exposição de clientes
  • Divulgação de andamentos processuais ou decisões judiciais
  • Exposição de qualquer resultado de êxito em demanda judicial
  • Uso de Google Ads, links patrocinados e impulsionamento de publicações

A Questão Central: Advogado Pode Postar Sentença?

A resposta para esta pergunta não é um simples “sim” ou “não”, mas um “depende”: especificamente, depende de como se pretende fazer esta publicação.

O que é Expressamente Proibido

O Provimento n. 205/2021 do CFOAB, em seu artigo 4º, § 2º, estabelece que é “vedada a referência ou menção a decisões judiciais e resultados de qualquer natureza obtidos em procedimentos que patrocina ou participa de alguma forma”. Isso significa que o advogado não pode:

  • Postar sentenças mencionando que foi uma decisão favorável
  • Indicar que patrocinou a causa
  • Informar número do processo e dados dos clientes
  • Utilizar casos concretos para oferta de atuação profissional

Advogado pode postar decisão favorável nas redes?

Pode divulgar conteúdo jurídico e pode comentar decisões, mas não pode transformar o resultado em anúncio dos próprios serviços. A linha que separa uma coisa da outra é a finalidade da publicação.

É o mesmo ato com dois enquadramentos possíveis. Explicar uma tese que o tribunal acolheu, com foco no raciocínio jurídico, é informação. Publicar a mesma decisão com o valor da condenação em destaque, o nome do escritório e chamada para contato é captação de clientela, e a publicidade da advocacia é informativa por definição, não podendo ter caráter mercantil nem prometer resultado.

Quatro elementos costumam converter a publicação em infração:

  • Exibir valor obtido como argumento de venda
  • Sugerir resultado semelhante a quem contratar, ainda que de forma indireta
  • Identificar o cliente ou o caso sem autorização, ou de forma que permita identificação
  • Divulgar processo em segredo de justiça, hipótese em que o problema deixa de ser ético e passa a ser legal

Postar sentença favorável expõe o cliente

O risco mais subestimado não é disciplinar, é de responsabilidade civil. O sigilo profissional pertence ao cliente, não ao advogado, e a autorização para divulgar precisa ser específica e preferencialmente escrita.

Tarjar o nome frequentemente não basta. Número do processo visível, print do sistema com dados da parte, menção à cidade somada à natureza da causa e a data da decisão permitem identificação com facilidade. Em causas de família, saúde, trabalho e questões criminais, essa exposição gera dano concreto ao cliente e pode fundamentar pedido de indenização contra o próprio advogado.

Processos que correm em segredo de justiça não admitem divulgação em nenhuma hipótese, ainda que com dados ocultados.

Advogado pode fazer live e vídeo curto no TikTok?

Pode. O formato não é o problema, e nenhuma norma proíbe rede social específica. As mesmas regras da publicidade da advocacia se aplicam em vídeo, em live e em post estático.

O risco do formato curto é outro: a consulta jurídica disfarçada de conteúdo. Responder ao vivo o caso concreto de um espectador, opinando sobre o que ele deve fazer, ultrapassa a informação e vira orientação individual em ambiente público, sem análise de documento e sem relação profissional estabelecida.

O caminho seguro é tratar de tese e de situação genérica, deixar claro que o vídeo não substitui a análise do caso, evitar promessa de prazo ou de êxito e não usar linguagem sensacionalista sobre valores obtidos.

O que é Permitido

Por outro lado, é possível fazer uma análise jurídica de um caso, discutindo a tese aplicada, desde que:

  • Não sejam revelados dados do cliente
  • Não fique explícito que o advogado foi o responsável pelo caso
  • O objetivo seja informativo e educacional

É permitida também a promoção de lives, mentorias e seminários, desde que tenham como objetivo informar e não induzir ao litígio ou captar clientela.

A Relação Entre Influência Digital e Ética Profissional

O fenômeno dos “advogados influencers” tem crescido significativamente, com profissionais alcançando dezenas de milhares de seguidores em plataformas como TikTok e Instagram.

Em fevereiro de 2025, inclusive, registrou-se o caso de um advogado com mais de 84 mil seguidores que conseguiu na Justiça o direito de restabelecer sua conta em uma rede social de vídeos curtos, onde divulgava conteúdos sobre direito trabalhista.

O Dilema dos Seguidores na Advocacia Digital

Para muitos advogados, principalmente os mais jovens, o número de seguidores nas redes sociais passou a representar uma forma de credibilidade e potencial captação de clientes.

Esta busca por audiência pode facilmente colidir com as normas éticas da profissão. A tentação de compartilhar vitórias profissionais para demonstrar competência é grande, mas pode configurar infração ética.

O crescimento orgânico de seguidores demanda tempo e consistência na produção de conteúdo educativo e informativo, respeitando as limitações impostas pela OAB.

Alguns profissionais, na ânsia por visibilidade rápida, consideram alternativas como comprar seguidores para o TikTok, prática muito usada por agências de marketing e influencers digitais para contas que são novas e não têm nenhum seguidor.

Como Manter a Conformidade Ética nas Redes Sociais

Advogados que desejam utilizar as redes sociais de maneira ética devem focar em:

  • Conteúdo educativo e informativo sobre temas jurídicos
  • Análises de teses jurídicas e interpretações da legislação
  • Debates sobre jurisprudência sem mencionar casos específicos próprios
  • Dicas gerais sobre direitos e deveres dos cidadãos
  • Comentários sobre notícias jurídicas relevantes, mantendo a sobriedade

Como Transformar Sentenças em Conteúdo Educativo Permitido

É possível adaptar casos concretos em conteúdo educativo sem infringir as normas éticas. Uma abordagem recomendada é:

  • Apresentar o tema jurídico de forma genérica
  • Discutir a tese aplicável sem mencionar dados do processo
  • Explicar o entendimento jurisprudencial sobre o tema
  • Evitar qualquer menção a participação pessoal no caso
  • Focar nos aspectos técnicos e educativos da questão jurídica

Exemplos Práticos: O Que Fazer e O Que Evitar

Publicação Inadequada:

“Mais uma liminar deferida ✅️ Em menos de 20 dias conseguimos busca de apreensão desses bens em favor do cliente”

Abordagem Permitida:

“Entenda como funciona o processo de busca e apreensão de bens: requisitos legais, prazos e direitos envolvidos neste tipo de medida judicial.”

Consequências de Infrações Éticas nas Redes Sociais

A violação das normas éticas relacionadas à publicidade profissional pode resultar em processos disciplinares perante os Tribunais de Ética e Disciplina (TED) da OAB.

As sanções podem variar desde advertências até suspensões temporárias do exercício profissional, dependendo da gravidade da infração.

Além das consequências formais, há também o impacto na reputação profissional. Um advogado que desrespeita as normas éticas nas redes sociais pode perder a confiança de colegas e potenciais clientes, prejudicando sua carreira a longo prazo.

Conclusão

As redes sociais representam uma oportunidade valiosa para advogados compartilharem conhecimento jurídico e construírem sua autoridade profissional.

TikTok e Instagram não devem ser usados como vitrines para exibir sentenças favoráveis ou resultados de processos.

A postura ética nas plataformas digitais deve priorizar o compartilhamento de informações úteis e a educação jurídica do público, sempre respeitando os limites estabelecidos pela OAB.

Com isso, é possível conciliar a presença digital com a dignidade e sobriedade exigidas da advocacia.

O advogado que deseja se destacar nas redes sociais deve fazê-lo pela qualidade de seu conteúdo informativo e educacional, não pela ostentação de vitórias judiciais ou pela quantidade de seguidores.

Afinal, na advocacia, a reputação ética continua sendo o ativo mais valioso, tanto no ambiente físico quanto no digital.

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